MUSIC, FASHION, ART, TRAVEL

BURNING MAN 2015

Começo esse texto com a seguinte declaração: O Burning Man é a experiência mais fantástica que já vivi. Ninguém deixa o deserto sem passar por um grande aprendizado. 

As vezes fica difícil conseguir explicar o que é o Burning Man mas prometo mergulhar profundamente nos 7 dias que estive nesse festival e relembrar toda arte que pude ver, os diferentes estilos de música que escutei, as pessoas que conheci e o que o festival me ensinou.

Esse foi meu quarto ano consecutivo de festival. Tudo começou quando há cinco anos quando conheci meu namorado, agora marido! Ele estava prestes a ir ao Burning Man, seria o seu sétimo ano no lugar! Pedi para ele me explicar o que é o festival e com dificuldade para encontrar as palavras certas ele disse "Is a life changing experience". Depois dessa não aguentei. Meu lado aventureiro ficou inquieto e prometi que iria com ele no próximo ano! Em Setembro de 2012, com a maior alegria e curiosidade do mundo me joguei no deserto de Nevada!

São mais de 70 mil pessoas que acampam por uma semana em condições muiiiiito precárias. Da primeira vez pensei: Como eles conseguem?  E a poeira, o calor, o frio, a comunicação com o mundo lá fora?! E o pra, o Instagram, o Snapchat?!!  O telefone não funciona e tem que se desligar e se desapegar totalmente das coisas materiais. Yessssss!

O festival acontece na Black Rock City, no meio do deserto de Nevada, nos Estados Unidos. A cidade é construída somente por uma semana. No sétimo dia tudo é recolhido, derrubado e até queimado. EÉ uma aventura que custa caro. O ingresso, a logística, a comida... Muita gente aluga um trailer e dirige de LA ate o festival, mas a cidade mais perto é Reno. O trailer tem que estar estocado com muita agua, comida, e tudo que você pode precisar lá. No Burning Man é proibida a compra ou venda de qualquer coisa (hoje eles vendem gelo e café, e SÓ)! Tudo acontece na base da troca. Você recebe vários presentinhos das pessoas, colares, pulseiras e vários outros mimos. 

Muita gente acampa, mas as condições são muito duras, tem que estar acostumado e saber montar tudinho e depois desmontar, muito trabalho. A maioria dos meus amigos tem seus próprios traillers, o que faz a jornada mais confortável. Ar condicionado, cozinha, comida no estoque e muita água. Nao pode deixar de tomar água, litros por dia para poder hidratar e ter energia no deserto. Lá é super seco, a pele fica um pêssego e ninguém sua (ainda bem), todo mundo lindo em suas bicicletas decoradas e com seus carros alegóricos!

Tem que ser criativo. As pessoas investem em looks suuuuper diferentes, todos podem se tornar o que sempre desejaram no deserto! Eu uso looks que jamais poderia usar na cidade, no meu cotidiano. Escolho pecas bem Mad Max. Roupas com couro, tachas, penas sintéticas e botas bem altas. Isso é quase um "must" já que o chão do deserto pode machucar os pés.

A noite é muito frio, todos usam casacos bem pesados, roupas quentinhas, gorros e meias. Durante o dia chega a fazer mais de 40 graus.

Da primera vez que fui, fiquei perdida na hora de fazer as malas mas perguntei a amigos que já tinham ido ao festival e me deram muitas dicas! Não existe uma maneira de se vestir, o importante é ter criatividade e estar confortável. Lá, tem de tudo, gente fantasiada, gente pelada, crianças, adolescentes e pessoas de mais idade. Todo mundo em busca de uma experiência singular que só o Burning Man pode oferecer. Este ano conheci muita gente diferente, os gênios do Google, hippes de São Francisco, artistas, engenheiros, yogis, até a Katy Perry estava lá (meu marido conversou com ela!!!).  

No Burning Man tem arte de todos os tipos. Quando digo arte, não me refiro a quadros ou esculturas! São estruturas que você não acredita quando vê. Carros, monumentos, templos, arte com espelhos, arte que move, arte com vídeo, com música… Tudo com o propósito de te fazer pensar, viajar, participar… Tem gente que gasta milhões para construir um carro artístico e levar ao Burning Man por uma semana todo ano. Nós temos o carro inspirado nos Flinstones. Um barato! Até as bicicletas tem que estar decoradas, regras da organização do evento. Aliás eles são super rigorosos com as regras no deserto. Nenhum lixo no chão, não pode deixar rastros. Tem polícia por todos os lados, mas sem deixar o ambiente pesado. Os policias usam óculos engraçados e até fantasia, volta e meia via um dançando!

Tem música por todas as partes também. São varias "boates" espalhadas pelo deserto. Você pode pegar a bicicleta e escutar a música de cada uma, estacionar, dançar um pouquinho, e partir pra outra! A nossa preferida é o Robot Heart e o White Ocean onde a música eletrônica é deliciosa e você pode escolher o horário que prefere ir!

A noite a cidade parece a Disney! Todas as luzes brilham, toda a arte no meio do deserto se destaca e o movimento no meio da Playa (como os veteranos se referem ao BM) aumenta já que muita gente prefere dormir quando o sol esta muito forte durante o dia e sair dia traillers a noite. 

Já ouviu falar nas tempestades do deserto? Pois é, no Burning Man quando a tempestade começa não da pra enxergar absolutamente nada, fica tudo branco. E por isso que as pessoas usam óculos estilo "goggles" e bandana no rosto pra não respirar a poeira. 

Um dia peguei a bicicleta e fui dar uma volta com meus amigos para explorar a arte do lugar. Quando a tempestade começou não consegui ver absolutamente nada, sem exagero. Acabei me perdendo, e foi a melhor coisa que aconteceu. Encontrei uma construção, um quadrado que parecia um cinema no meio do deserto. Resolvi entrar e não acreditei no que vi. Pessoas comendo pipoca e guloseimas, no que parecia um perfeito cinema antigo, rodando um filme em preto e branco. As poltronas super confortáveis, o chão todo decorado com cores em néon, uma loucura! Sentei e aproveitei meu momento, sozinha, feliz.

Saí de lá e pedalei até o templo. Esse templo de madeira que você vê nas fotos é um lugar que as pessoas vão para meditar, pensar e rezar. A maioria das pessoas escrevem mensagens pra pessoas que já se foram e até colocam fotos, ou deixam um objeto de valor sentimental. A energia desse templo é tão forte e especial que assim que entrei me arrepiei inteira. No final do festival, esse templo incrível, gigante, todo trabalhado nos mínimos detalhes é queimado numa cerimônia silenciosa, com milhares de pessoas ao redor. Outro momento de arrepiar.

Cada um vive essa experiência do jeito que preferir. Tem gente que faz yoga, tem gente que medita, tem gente que leva os filhos,  tem gente que dança o tempo todo, alguns fotografam, alguns pedalam sem parar em busca de surpresas, alguns se perdem de propósito, alguns gostam do dia, outros preferem a noite e ainda tem os que não dormem!

O Burning Man é feito com amor para as pessoas se descobrirem, se respeitarem, ajudarem uns aos outros. Lá não se pode comprar ou vender nada, apenas trocar! As coisas acontecem e fluem de uma maneira incrível. Cada um participa de um jeito. Um amigo fez 300 pulseiras lindas para distribuir, outro levou 2.000 caixinhas de água de côco para quem tiver sede, outro levou um carrocinha de cachorro quente pra oferecer, tudo no meio do deserto! No nosso acampamento tínhamos um "chef" que cozinhava todos os dias e muitas vezes convidávamos outras pessoas que no final ajudavam a organizar! 

Eu posso dizer que a maior mensagem que tirei do Burning Man foi não só aprender a estar em um lugar com condições duras por uma semana (muito calor, muito frio, muito seco, economizando água, comida, andando muito), mas também aprender que no nosso mundo de todo dia esquecemos que podemos ser tão felizes sem ter muitas das coisas que achamos essenciais. 

Quase chorei quando vi as estruturas mais lindas do lugar pegando fogo. Tanto trabalho, tanta dedicação. Eles fazem isso de propósito, para passar uma mensagem. A mensagem do desapego, das coisas materiais, das coisas que nos deslumbramos ao ver no nosso dia-dia. A minha experiência pessoal foi muito forte, aprendi de verdade. Não posso dizer que nos dias de hoje conseguiria viver nessas condições pois sou realista. mas posso dizer que nunca me senti tão feliz e tão livre. Nunca senti tanto amor pelas pessoas e pela natureza. 

Imaginem todas as escolas de samba juntas, em pleno carnaval, com 70.000 pessoas e cada um tendo a liberdade de construir sua fantasia, dançar do seu jeito, fazer o que quiser. É a arte da mistura entre a música, cores, figurinos, carros alegóricos e principalmente o respeito à liberdade.

Viva o Burning Man!

Ano que vem tem mais.